
No artigo "A ética, os fins e os meios", eu citei o episódio da Fórmula-1 em que o piloto brasileiro Felipe Massa foi obrigado a deixar seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, ultrapassa-lo, esta ordem veio de forma indireta e infantil da Ferrari, equipe dos 2 corredores. O motivo é que o piloto espanhol teria mais chances de ser campeão do mundo.
Na epoca eu critiquei o jogo de equipes, pois Alonso estava muitos pontos atrás de Lewis Hamilton, da Maclaren, então líder do campeonato. Afirmei não ser fundamentalista da ética, entendo que sendo a ultima corrida do ano e o "jogo de equipe" for a única forma de fazer o campeão mundial de pilotos, seria a medida mais sensata a ser feita, mas não a admitia em situações onde não tenha necessidade ou seja inútil.
Pois bem, o fato é que Alonso, em função do episódio e de erros de outros pilotos ou suas equipes, chegou no final do campeonato como líder absoluto e favoritíssimo ao titulo. Sua vantagem, faltando 2 provas pra terminar o campeonato, era de 11 pontos pra Mark Webber e 25 pontos pra Sebastian Vettel, ambos da equipe Red Bull Racing. Minha indignação era que, uma atitude antidesportiva num momento aparentemente irrelevante do campeonato iria dar a vitória ao piloto da Ferrari e premiar a desonestidade.
Então pensei: "Agora cabe o jogo de equipe, a Red Bull deve dar preferência ao Webber em detrimento de Vettel, e evitar que a atitude da Ferrari seja vitoriosa". Pra minha surpresa, Dieter Mateschitz, dono da RBR, proíbe o "jogo de equipe" e afirma que o resultado será feito na pista, quem for melhor que ganhe. Eu e outros fãs de automobilismo que torcíamos contra a Ferrari chamamos a equipe de "Red Burra", afinal se havia algum momento em que o "jogo de equipe" se justificasse, era aquele, reta final do campeonato com Webber tendo muito mais chances de desbancar Alonso do que Vettel. Dito e feito, no penúltimo GP, em Interlagos, Vettel chega em primeiro com Vebber em segundo, sem nenhuma ordem pra mandarem trocarem suas posições durante a corrida. Como Alonso chegou em terceiro, suas chances de ser campeão prosseguiram imensas, bastaria um terceiro lugar no GP Abu Dhabi, ultimo do ano, isso se Webber ganhasse, se fosse Vettel o vencedor, bastaria ao espanhol chegar em quinto. Fatura liquidada era o que muitos, eu incluso, achávamos.
E não é que Vettel vence a corrida e Alonso chega em sétimo?! E isso devido a um acidente que manda o safety car pra pista logo na primeira volta, alterando as estratégias de paradas das equipes, propiciando ao piloto russo, Vitaly Petrov, da Reanult(ironicamente a mesma equipe em que Alonso esteve envolvido num dos maiores escândalos da F-1) parasse antes e ficasse a frente de Alonso quando este finalmente fizesse sua parada, e ficou em sua frente até o final da corrida, sem que ninguém pudesse "mandar passar".
Webber ficou em oitavo. Tivesse a RBR feito o "jogo de equipe" na corrida anterior, mandando Vettel deixa-lo passar pra ficar em primeiro, e Alonso teria sido campeão mundial este ano.
Parabéns ao piloto alemão Sebastian Vettel, o campeão mais jovem da história, com 23 anos, 4 meses e 11 dias.
E parabéns a Red Bull Racing, que fez o campeão do mundo sem ferir a ética, aliás, fez o campeão justamente porque se manteve íntegra até o fim.
E este escriba humildemente admite rever conceitos. Não tenho o hábito de citar amigos neste blog, mas Arthur Golgo Lucas, que acompanha o blog e disse, na época que fiz meu artigo, que a ética no esporte deve ser absoluta e imperiosa. E ele tinha razão, tinha e tem.
Quebrando outro protocolo do blog, posto neste artigo também uma foto, a foto do campeão entre os ultimos 2 campeões mundiais, Hamilton e Jason Button, que curiosamente completaram o pódium nesta corrida. Seu título merece esta homenagem, é o título que simboliza a vitória da ética absoluta, da justiça inquestionável, é a prova que se pode conseguir sem ser anti-desportivo, aliás, só foi campeão pelo espírito ultra desportivo de sua equipe.
Salve!